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O que organizar o guarda-roupa pode ensinar sobre o processo de terapia?

Foto do escritor: Tamara Fagundes
Tamara Fagundes
27 de jul.
3 min de leitura

Você compra roupas novas.

Porque estão na moda.

Porque as antigas já não parecem tão bonitas.

Ou porque você mudou de peso e está guardando algumas peças para quando elas voltarem a servir.

E tudo bem. Ainda tem espaço.


Até que começam a chegar outras coisas.

Malas.

Caixas organizadoras.

Documentos da família.

Fotos.

Brinquedos.

E, de repente, o guarda-roupa já não guarda apenas roupas.


Tem aquela pilha de camisas que está escorregando.

O cabide que quebrou há seis meses.

A sacola de roupas que sua irmã devolveu e você prometeu guardar no final de semana.

“Depois eu arrumo.”


Aí chega seu aniversário.

Você ganha cinco vestidos novos.

E pensa:

“Onde eu vou colocar isso?”

Talvez seja hora de separar algumas coisas para doação.

Mas…

onde mesmo que eu levo isso?


Você sabe que precisa organizar.

Mas quem tem tempo?

Até que um dia…

não dá mais.


Você tira tudo do lugar.

Encontra caixas cheias de poeira.

Cadernos do ensino médio.

Roupas que nem lembrava que tinha.

E, às 11h30 da manhã, ainda nem está na metade.

Você olha para a bagunça e pensa:

“Por que eu fui inventar de mexer nisso?”


A terapia pode ser um pouco assim.

A gente vai acumulando coisas ao longo da vida.

Medos.

Perdas.

Culpa.

Ressentimentos.

E, muitas vezes, a gente se acostuma com tudo isso.

Vai colocando uma coisa por cima da outra.

Vai deixando para depois.


“Não é tão importante.”

“Já passou.”

“Eu consigo lidar.”

Até que aquilo que parecia apenas uma pequena desorganização começa a ocupar espaço demais.

É aí que muitas pessoas procuram a terapia.

Mas começar a terapia não significa que, de repente, tudo vai ficar organizado.


Assim como no guarda-roupa, o processo pode parecer pior antes de começar a ficar melhor.

Você pode precisar tirar coisas do lugar.

Olhar para experiências que estavam guardadas.

Entender o que ainda ocupa espaço.

E descobrir outras formas de lidar com a vida.

Pode ser difícil. Pode ser desconfortável. Pode levar tempo.

Mas, aos poucos, algo começa a mudar. Organizar dá trabalho.

Dá trabalho porque precisamos decidir o que fica e o que precisa ir embora.

Dá trabalho porque precisamos reconhecer que algumas coisas já não fazem sentido na nossa vida.

Dá trabalho porque encontramos coisas que nem sabíamos que estavam ali.

Dá trabalho entender que criamos formas de nos proteger que um dia foram necessárias, mas que talvez hoje estejam ocupando espaço demais.

Dá trabalho entender a nossa própria história e entender o que nos deixa angustiados. E nos deparamos com…

As emoções que ficam mais difíceis de entender.

As relações que começam a pesar.

As situações que parecem se repetir.

E aquilo que antes parecia apenas uma pequena desorganização começa a ocupar espaço demais.

É aí que muitas pessoas procuram a terapia. (É assim que a psicóloga gosta de imaginar, mas quem dera que fosse assim fácil buscar terapia.)


E talvez seja importante saber: começar a terapia não significa que, de repente, tudo vai ficar organizado.

Você pode precisar tirar coisas do lugar.

Olhar para experiências que estavam guardadas.

Entender por que algumas coisas continuam ocupando tanto espaço.

Mas, aos poucos, algumas mudanças acontecem. Talvez seja até difícil perceber, mas em cada sessão algo muda.

Assim como quando você finalmente termina de organizar o guarda-roupa.

As roupas estão separadas por cor.

Você encontra aquilo que estava procurando.

Fica mais fácil escolher o que vestir.


A porta fecha.

Há espaço para as coisas novas.

E você pensa:

“Por que eu demorei tanto para fazer isso?”

 
 
 

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